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Opinião

"Liberdade"

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Foto: Leopoldina Almeida

"Faltam 15 dias para eu estar a descer a Avenida da Liberdade, juntamente com milhares de outras pessoas, para comemoráramos em conjunto, e na rua, os 50 anos da Liberdade e da Democracia em Portugal. Não sei como me sentirei. Por um lado, penso que vou sentir uma alegria enorme por estarmos muitas, juntas, com um mesmo sentir e com vontade de o gritar a uma só voz. Mas também sei que um sentimento agridoce vai estar no ar a turvar estas comemorações", realça a crónica de Leopoldina Almeida, professora.

"Em 1974 eu tinha 3 anos. Não me lembro de viver em ditadura, nem do dia 25 de Abril desse ano. A minha primeira imagem foi do primeiro 1º de maio em Coimbra, em que perguntei aos meus pais se também podia ir pintar numa parede, quando vi muitas pessoas juntas a fazê-lo. Com a minha timidez, fiquei radiante quando me passaram um pincel com tinta azul. E sempre que passava naquele mural olhava sempre com orgulho para o meu boneco pequenino na barra do muro da escola secundária Jaime Cortesão. Sem saber se exatamente era o meu ou de outra criança. No entanto, após 50 anos de caminho, voltam os fantasmas do passado. E não consigo deixar de sentir uma revolta enorme ao pensar em todas aquelas pessoas que lutaram e deram até a vida para agora chegarmos “ao estado a que chegamos”, parafraseando Salgueiro Maia. Voltaram a normalizar-se atitudes racistas e xenófobas. Voltaram a sair dos armários discursos bafientos de ódio contra migrantes, ciganos, pessoas LGBTIA+, Mulheres. Volta a elogiar-se o papel da mulher como “dona de casa” - ao invés de a valorizar como a dona DA casa), já que é maioritariamente ela que a limpa e cuida da família que a habita - a glorificar-se o papel da mãe, ou seja, a mulher como aparelho reprodutor, que à custa das narrativas do instinto maternal e do “amor e carinho” é uma faz-tudo nas

tarefas de limpeza e cuidado, sem nada receber em troca a não ser a manutenção do elevado número de crimes de violência de género e a hipótese de reversão a lei do aborto. Pois é, manobras de distração para nos desfocar da deterioração no investimento no SNS e na escola pública, da decrescente qualidade de vida de milhares de pessoas, em contraste com os lucros desmesurados das grandes empresas, apesar de toda a informação, apesar da consciência das desigualdades, apesar da crise climática. Às vezes tenho a sensação que a alienação é tal, que só quando tivermos que pagar, literalmente pagar, o ar que respirarmos é que vamos acordar. Provavelmente sufocadas! E mesmo assim, não sei. Ainda nos vão convencer que isso é natural, estranho era que o ar fosse gratuito! Como mulher, como docente e defensora da escola pública, como mãe de outra mulher e professora de tantas e tantos jovens que não se encaixam nos padrões ideais de heteronormatividade, cisnormatividade, cor de pele e naturalidade que muitos defendem, não consigo ficar indiferente ao rumo que a nossa história pode tomar. 50 anos são muitos dias. E todos os dias contam. Tenho esperança que este arrombo na nossa democracia nos possa fazer abanar e agir. A democracia tem que ser uma prática diária, vivida em casa, na escola, nas assembleias, nos coletivos, nas associações, nas instituições, nas ruas. É uma luta constante. Talvez nos tenhamos esquecido disso por uns tempos… Mas é urgente recordar-nos, pois corremos o risco de não ter garantido o dia 25 de Abril de 2025, 2026, 2027... Até que tenha que surgir um novo dia, num novo mês, num novo ano para voltarmos a comemorar!."

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