Pela primeira vez desde 2015, o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social desceu abaixo dos dois milhões. São menos cerca de cem mil pessoas do que no ano anterior, um progresso que a EAPN Portugal considera importante, mas insuficiente para ultrapassar as desigualdades que persistem no país.
O relatório mostra que o emprego, por si só, não afasta necessariamente o risco de pobreza. Entre os adultos em situação de pobreza monetária, quase metade encontra-se no mercado de trabalho. O dado contraria a ideia de que a pobreza resulta sobretudo da ausência de emprego e chama a atenção para a insuficiência dos rendimentos de uma parte da população trabalhadora.
A composição familiar também faz diferença. Nas famílias monoparentais, o risco de pobreza ou exclusão social atingiu o valor mais elevado desde 2018, depois de dois anos consecutivos de melhoria. Para estes agregados, suportar as despesas da casa e assegurar as necessidades dos filhos com um único rendimento representa uma dificuldade acrescida.
A habitação é outro dos fatores que ajuda a compreender a distância entre os indicadores económicos e as condições de vida das famílias. Quando se descontam os encargos habitacionais aos rendimentos disponíveis, a proporção de pessoas abaixo do limiar de pobreza aumenta de cerca de uma em cada seis para mais de uma em cada quatro.
O problema não se limita às famílias com rendimentos abaixo do limiar de pobreza. Quase três em cada dez pessoas em Portugal não conseguem pagar uma despesa inesperada de aproximadamente 632 euros sem recorrer a crédito. Uma avaria no automóvel ou uma despesa de saúde podem, por isso, comprometer um orçamento familiar que já não dispõe de margem para imprevistos.
As diferenças entre regiões também permanecem expressivas. Nos Açores, mais de uma em cada quatro pessoas está em risco de pobreza ou exclusão social. Na Madeira, a proporção ultrapassa uma em cada cinco. Os resultados confirmam que as condições de vida e a exposição à pobreza não são iguais em todo o território nacional.
“Quando uma família tem de escolher que despesas consegue pagar ou quando um salário não chega para assegurar as necessidades básicas, percebemos que a pobreza não se resume a um indicador estatístico. A erradicação da pobreza não pode continuar a ser adiada, porque a dignidade humana e o acesso aos direitos fundamentais não podem depender da condição económica ou social de cada pessoa”, defende Maria José Vicente.
O relatório reconhece ainda a importância das prestações sociais na redução da pobreza. Sem o efeito das pensões e dos restantes apoios sociais, a proporção de pessoas com rendimentos abaixo do limiar de pobreza seria muito superior, o que evidencia o papel da proteção social na prevenção de situações de maior vulnerabilidade económica.
Elaborado com base no Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2025, relativo aos rendimentos de 2024, o relatório analisa a evolução da pobreza em Portugal e identifica os grupos da população que continuam mais expostos ao risco. A publicação inclui também uma comparação com os restantes países da União Europeia.
O relatório “Pobreza e Exclusão Social em Portugal 2026” e a respetiva infografia estão disponíveis para consulta no site da EAPN Portugal, em www.eapn.pt.
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