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Opinião

"Para a poesia nunca reservei um dia ou uma hora"

Opinião

"Para a poesia nunca reservei um dia ou uma hora"

Foto: Martinho Marques

"Eu sei lá se nesse dia a poesia desconfia e acaba por se ir embora", sublinha a crónica de opinião de Martinho Marques, professor, e poeta, que pode ler e ouvir aqui.

"Quando em Abril, afinal,

a maioria nem sequer sabia

do dia do recital

juntou-se um povo em poesia.

Naquela data bem-vinda

que nos tornou mais livres e humanos

e os poetas cantam ainda

passados 50 anos.

……………

“Foi difícil chegar a esse dia,

facilmente sentido e entendido,

nas poucas vezes em que a harmonia

se pôde achar na rua e no ruído.”

……………...

“Estava cá e vi Abril,

por quase todos saudado,

passar de primaveril

a pormenor do passado.

Passar de dia sagrado

a dia que se adiou

e o que ainda não passou

passar a ser disputado.

Eu estava. Com a alegria

e a certeza que me dava

de que só o entenderia

quem nesse dia cá estava.”

……………

Mas, se é preciso um poema adequado

a este dia chamado “da poesia”,

eu vou dizer-vos um que está guardado

e que nasceu sem eu saber o dia.

Inédito, talvez não faça mal

afinal eu mostrá-lo já agora.

É acerca da língua, sem a qual

a poesia esfria ou evapora.

……………

“Vocês da língua não dão conta dela.

E não são só os poetas que a semeiam,

que a cavalgam, que a esporeiam,

que fazem amor com ela.

Há quem a torna às vezes mais enfática

e menos antipática e hermética,

quem a cria com erros de gramática,

quem põe a eufonia na fonética.

Nunca a prendeu o que por ela zela.

Cria-a aquele que a contraria mais,

que ao dizer a palavra a atropela,

que normaliza as formas anormais.

Não há ninguém que a mate nem que a ate.

Enquanto houver viventes, ela é viva.

Ela chama o amor, toca a rebate,

torna-se terna ou torna-se explosiva.

Ela é amarga, é doce, ela é macia.

Ela é permeável, indomável, bela.

Ela não morre, escorre, é escorregadia.

Vocês da língua não dão conta dela."


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